JORNALISTA
Quando falamos dos direitos das crianças e dos adolescentes, o
papel dos profissionais de imprensa na sociedade vem carregado de
uma imensa responsabilidade. É fundamental denunciar a violência
contra crianças e adolescentes, incluindo a sexual, além de cobrar
políticas públicas eficientes. Também é essencial informar caminhos
para a prevenção, responsabilização do agressor e ações das
instituições de proteção e atendimento às vítimas.
Mas, para isso, é preciso ter alguns cuidados ao produzir as
matérias, pois quando o assunto é violência sexual, ainda tabu na
sociedade, ou é muitas vezes é invisibilizado por pactos de
silêncio, ou equivocadamente exposto por uma cobertura
sensacionalista.
O profissional de comunicação que busque ter uma postura
comprometida e ética não pode apenas registrar e denunciar os
fatos, mas também abordar o tema sob a perspectiva dos direitos
humanos.
Retratar os personagens preservando sua imagem é um desafio na
cobertura jornalística. Mas é possível fazer um bom trabalho de
informação e sensibilização da sociedade sem revitimizar as
crianças e os adolescentes que sofreram violência.
Considere o seguinte para realizar uma boa reportagem:
• Invista na qualidade de informação para mobilizar a sociedade na
busca de soluções.
• Ouça todos os lados da história (vítimas, agressores, familiares,
especialistas, mediadores), com pontos de vista divergentes.
• Ofereça serviços úteis. Informe sobre canais de denúncia, indique
instituições de apoio, serviços especializados e organizações
sociais.
• Trate crianças e adolescentes vítimas de violência sexual
respeitando sua condição de pessoa em desenvolvimento.
• Produza discurso ético e contextualizado na reportagem, com
linguagem acessível.
• Discuta o sistema de recuperação de agressores e de assistência
às vítimas.
• Acompanhe o inquérito policial e atualize a população sobre os
desdobramentos do caso.
• Consulte os especialistas e autoridades responsáveis pelo
problema, mas evite a cobertura baseada apenas em boletins de
ocorrência.
• Utilize linguagem didática e adequada para a faixa etária ao
abordar o assunto em suplementos infantis e juvenis.
• Aprofunde a cobertura e amplie a repercussão do caso com suítes
(continuação das matérias do mesmo tema).
• Apure o que há por trás do abuso sexual (valores culturais,
questões socioeconômicas, de gênero, étnicas, problemas de educação
e saúde).
• Leia publicações especializadas e participe de encontros e
seminários para se aprofundar no tema.
• Analise o que leva a sociedade a interpretar erroneamente a
questão da culpabilidade da vítima.
Evite equívocos na cobertura jornalística com estas dicas:
• Redobre a atenção ao tratar de suspeitas e acusações de abuso ou
exploração sexual para que não se cometam equívocos na cobertura
jornalística. Crimes sexuais contra crianças e adolescentes têm
forte apelo emocional e levantam a ira da opinião pública.
• Evite o sensacionalismo e o julgamento precipitados, que podem
ocasionar sérios danos à imagem e à integridade física de uma
pessoa. O acusado só pode ser considerado agressor em casos de
flagrante, confissão ou de sentença já determinada.
• Nunca use crianças e adolescentes em reportagens se for para
perguntar sobre a violência sofrida. Isso gera revitimização e
sofrimento, além de uma exposição desnecessária na mídia que pode
até colocar a vida delas em risco.
• Não divulgue informações que possam identificar a vítima. Além de
preservar nome, imagem e voz, cuidado ao citar ou mostrar cidade,
rua ou fachada da residência da vítima.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a preservação da
imagem de crianças e adolescentes. Com isso, quem trabalha com
filmagem ou fotografia tem o desafio da maneira de retratar os
entrevistados sem expô-los. Assim como a palavra mal empregada, a
imagem também pode reforçar preconceitos e tabus.
Seguem algumas dicas de boas práticas para utilização de recursos
de imagem ao tratar sobre o tema da violência sexual contra
crianças e adolescentes.
• Não coloque tarja preta nos olhos das vítimas. Esse recurso
costuma estar relacionado à marginalidade e não impede o
reconhecimento da pessoa.
• Utilize ilustrações ou outros recursos técnicos como um artifício
imagético para a reportagem, usando o bom senso e a
criatividade.
• Faça a desfocalização da imagem e distorção da voz.
• Mostre imagens de partes do corpo isoladas, como mãos e pés.
• Use imagens de objetos e situações que remetam à infância.
• Use silhuetas refletidas em superfícies capazes de distorcer
formas.
• Use sombras explorando perfil.
Em textos jornalísticos, a terminologia usada exige muita atenção
para não apelar para o sensacionalismo e não prejudicar o
entendimento do fenômeno.
• Não confunda notificação (a comunicação de uma situação de
violência para o Conselho Tutelar ou para uma Vara da Infância e
Juventude) com denúncia (quando o promotor de justiça formaliza a
acusação, dando início a uma ação penal).
• Meninos e meninas são sempre vítimas de exploração sexual e nunca
de prostituição, que é exercida apenas a partir da escolha
consciente de adultos que conhecem as consequências de
comercializar o próprio corpo.
• O termo "menor" não deve ser utilizado para designar crianças e
adolescentes, por ser considerado pejorativo. A definição remete ao
Código de Menores, Lei 6.697/67, revogado em 1990, a partir da
promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e se
destinava a meninos e meninas em situação de abandono, de trabalho
precoce ou em conflito com a lei.
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